Cena #1: Gavin Krastin (Africa do Sul)

Arquivo
No campo da performance, a vida útil de uma imagem é efêmera. Rapidamente, a ação, seus desdobramentos e tudo o que foi criado para ela – trajes, cenários, objetos – é desmontado, embalado e armazenado longe de nossos olhos. Neste Arquivo, Gavin Krastin tira das caixas elementos visuais – detritos visuais, como chama – de sua trajetória como cenógrafo, performer e encenador, e os expõe em um arranjo alusivo aos gabinetes de curiosidades dos séculos XVI e XVII, que funcionavam como microcosmos de mundos distantes e exóticos.
Do material arquivado, Krastin vê emergir poderosos partidos visuais, que identificam o corpo humano a um animal sexual, violento, consumista e abjeto. Sua seleção curatorial evidencia estas conexões, criando um teatro de memórias que justapõe elementos de cena, figurinos, informações e peças criadas a partir da desconstrução e recombinação de itens guardados.
Como em um verdadeiro gabinete de curiosidades, as fronteiras entre o que é história e o que é mito, projeção e imaginação encontram-se, aqui, borradas, confundindo a ficção e a realidade.

GavinKrastin image 2 - for archive installation - Rough Musick (photo by Alexis Lucio 2013)
Rough Musick /
Música Bruta
Ao tomar como inspiração a prática de humilhação pública comum na Inglaterra medieval, a performance provoca o engajamento crítico e participativo do espectador. Em seu contexto histórico, para anunciar a desgraça de criminosos, ladrões e homossexuais, o ritual da “música bruta” envolvia a comunidade em uma espécie de ritual, no qual utensílios domésticos eram usados para produzir uma insuportável cacofonia sonora.
Comissionada pelo Festival Nacional de Artes sul-africano de 2013, Rough Musick é uma experiência visual visceral, que se desenrola a partir da colisão desenfreada de imagens e gestos do folclore gaélico, da cerimônia pagã inglesa do “comedor de pecados” (quando a família de alguém que acaba de morrer convida um mendigo ou pedinte para “absorver” os pecados do morto em troca de comida), de histórias do bicho-papão e de jogos fetichistas psicossexuais.
Física ao extremo e de visualidade intensa, a performance impõe a Krastin, que tem descendência inglesa, a posição de “primitivo”, revelando o aspecto “exótico” da cultura branca do Reino Unido pré-imperialista.

Concepção: Gavin Krastin
Intérpretes: Gavin Krastin e Alan Parker
Som original: Shaun Acker
Música adicional: Christina Aguilera e Vera Lynn

Gavin Krastin é performer, cenógrafo e encenador. Seu trabalho multidisciplinar se inspira em seu país de origem e nas histórias coloniais impregnadas nas mudanças sociopolíticas em curso. Interessado sobretudo na representação do corpo e em suas interações com o espaço, defende o uso de arenas e espaços não convencionais, onde os fatores de risco desconhecidos são iminentes. A percepção das questões sociais subjacentes aos espaços move a política de transgressão e hibridismo de seu trabalho. Formado em coreografia e performance, estudou Teatro, História da Arte e Cultura Visual. Apresentou-se em festivais na África do Sul e no exterior, além do World Stage Design em 2013 e do Festival Nacional de Artes da África do Sul, no mesmo ano.

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