CENA #1: Marketa Fantova (República Tcheca)

O desenho de cena sem rótulo

Não deveríamos nos esforçar tanto para tentar discriminar, racionalizar, classificar ou rotular quais são os componentes exatos do design cênico. São a abertura e a liberdade que estimulam novas ideias.
Ao que parece, muitas tentativas de criar trabalhos novos e originais partem da rejeição e da desconstrução de práticas antigas. Negações e racionalizações excessivas criam limites desnecessários. Quanto mais tentarmos sair da caixa desta forma, mais nos veremos encaixotados.
Em vez disso, deveríamos considerar a sorte de poder realizar nossos sonhos, vê-los materializarem-se e desaparecer. Criamos momentos para compartilhar com nossos contemporâneos, mundos temporais, cápsulas emocionais medidas por um relógio mental qualitativo, e não quantitativo, como aquele que divide nossa vida em segundos. Se trabalharmos com absoluta honestidade, não ficaremos entediados nunca. Estaremos sempre em busca de soluções, ideias, inspiração.
Somos movidos pela necessidade de compartilhar algo importante, buscar os significados mais profundos, navegar no limite entre emocional e lógico, trazer vislumbres dos cantos mais distantes da imaginação humana, borrar a fronteira entre realidade e ficção.
Acima de tudo, trabalhamos para criar um universo em que artista e público possam viver uma experiência juntos. Um universo com leis e lógica próprias, e infinitas possibilidades de revelar o inesperado. Olhamos pela lente do aqui-agora, trazemos momentos do passado e do futuro para o presente, falamos do que está acontecendo, de situações e elementos que nos mobilizam e geram mudanças.
O que mata nosso trabalho é a rotina, a repetição vazia dos mesmos passos, a incapacidade de ouvir e fazer uma conexão com o outro. Fracassamos quando não sentimos nada – nós, espectadores, artistas, humanos. Quando não conseguimos alcançar qualquer nível de emoção.
É possível desenhar uma cena no teatro, no espaço público, no meio de um lago. Pode-se lançar mão de qualquer abordagem, disciplina ou tecnologia; de pintura, escultura e arquitetura aos espaços construídos apenas com som ou luz. Não há limites, exceto aqueles que nos impomos: os nossos medos.

Markéta Fantová (República Tcheca) é cenógrafa, designer de luz e figurinista de teatro, dança e performance. Apresentou seu trabalho em teatros e galerias nos Estados Unidos e Europa. Em junho de 2015, esteve à frente da representação americana na Quadrienal de Praga, atuando como curadora da Exposição Nacional e da Mostra dos Estudantes. É diretora artística da próxima edição da Quadrienal de Praga (2019).

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