CENA #1: Pamela Howard (Reino Unido)

Um contexto para a narrativa

Todo enredo dramático trata de amor e morte, tragédia e comédia, ilusão e realidade, e é encenado para um público por atores – os “portadores do mito” – em um espaço dedicado à performance. A palavra falada ou cantada conta a história; o artista visual busca complementar e amplificar a narrativa, para que os olhos vejam o que os ouvidos não ouvem.
Contar uma história requer sincronicidade entre elementos – verbo, música, visualidade e texto. Idealmente, todos deveriam se integrar em uma linguagem teatral coerente, capaz de incitar ao debate crítico. Para o cenógrafo norte-americano Ming Cho Lee, o teatro é “uma arena onde as grandes questões da vida são enfrentadas”.
As palavras são ambíguas e muitas vezes criam mal-entendidos. “Design”, tradicionalmente, remete à arte aplicada; na língua inglesa, “cenografia” ainda se confunde com “cenário”. Em 1970, Roger Planchon, então jovem autor e diretor teatral de uma vila em Ardeche, na França, começou a “pintar quadros com pessoas” no palco. Descrevia a prática, que surgira de forma muito natural, como “l’écriture scenique”, do grego skeno-grafika, a escritura cênica.
O termo “diretor”, que ninguém questiona, está longe de descrever as competências interdisciplinares e o repertório que são necessários para enfrentar os desafios da prática teatral contemporânea.
Desenhar, por sua vez, é algo muito preciso, mesmo quando feito livremente. Uma simples linha traçada por Matisse basta para descrever o volume de um corpo de forma clara, bela e sugestiva. O artista visual que trabalha com teatro tem de ser um observador compulsivo da vida humana; precisa ter formas de registrar o que vê e, mais tarde, resgatar seus registros e sensações, para que estes possam ajudar a recontar histórias atemporais, que são a alma do teatro. Nada é capaz de coordenar a memória de forma tão eficiente quanto o cérebro, o olho, a mão e o ato de se comprometer a desenhar no papel. “Um lápis nunca nos deixa na mão”.
Contar histórias, ainda que a mesma história, geração após geração, é o legado mais duradouro da civilização humana; é o que sempre voltamos a interpretar em contextos contemporâneos.

Pamela_Howard_grandmother and blind boy Carmen

Pamela Howard (Reino Unido) é cenógrafa, educadora, curadora e artista visual. Estudou no Birmingham College of Art and Crafts, no Birmingham Repertory Theatre e especializou-se em Cenografia no Slade School of Fine Art de Londres. Nos anos 1970, trabalhou na França com o encenador Roger Planchon. Atuou como cenógrafa freelancer em muitos dos principais teatros regionais do Reino Unido, e em produções na Europa e Estados Unidos. Desde 2000, trabalha como diretora de óperas e cenógrafa na República Tcheca e no Reino Unido. É autora do livro O que é Cenografia (Routledge/ Edições Sesc) e diretora de arte de O Grande Jogo (Tricycle Theatre Londres/ Reino Unido).

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